Coisa que brasileiro não aguenta mais nem ouvir falar é em corrupção.

Se surge uma denúncia ele nem espera comprovação para encher as redes sociais de indignação. Para o corrupto espera-se nada menos que prisão perpétua em regime fechado de cadeia com as piores condições. Prisão domiciliar ou qualquer forma mais branda de pena já gera revolta, sentimento de impunidade e insinuações de que o crime no Brasil compensa.

A associação imediata é com políticos, como se só eles tivessem esse poder demoníaco de praticá-la.

No entanto, segundo revela estudo recente da BSA – The Software Alliance, sobre o panorama mundial da pirataria de software, nada menos que 50% dos softwares ativos no Brasil são piratas (contra 18% nos EUA, 19% no Japão ou 24% na Alemanha). A metade! Para não falar na pirataria de outros itens, como filmes, música, eletrônicos, sinais de TV, etc.

É a chamada pequena corrupção, que está na raiz da grande corrupção. Grande ou pequena ela se caracteriza pela incapacidade moral dos cidadãos de assumir compromissos voltados ao bem comum.

Na pequena corrupção a desculpa na ponta da língua é o preço “alto” (claro, comparado com o “pirata”), que a pessoa faz parte de uma classe desprivilegiada, que todo mundo pratica a pirataria. Na grande corrupção a desculpa é que a pessoa “merece”, porque lutou muito para chegar onde chegou, porque seu talento não é tão bem reconhecido e... porque todo mundo a pratica.

Assim como na grande corrupção, na pequena o corruptor só existe porque o corrupto existe. Para ter uma ideia, só primeiro semestre deste ano, a ABES (Associação Brasileira das Empresas de Software) retirou do ar mais de 28 mil itens entre anúncios em sites e links que davam acesso a softwares ilegais.

Mas esse é um trabalho de enxugar gelo, porque o interesse do comprador estimula a continuidade do crime.

50% significa que um número incalculável mas certamente gigantesco de crianças está neste exato momento sendo preparado, através do péssimo exemplo dos adultos, para fingir que não sabe distinguir o lícito do ilícito.

E se hoje esse brasileiro indignado se queixa de não ter em quem votar, é preciso que tenha claro na mente de onde sairão os políticos de amanhã. E quem são os adultos que os estão formando.

A diferença entre os indignados com a corrupção dos políticos e os que a praticam não pode ser apenas o preço.